Neste número:

1         Os palinomorfos: acritarcos e prasinófitas

Ano 3

Número 34

Outubro 2001

Exemplar de acritarco (Veryhachium sp.), Paleoceno superior da Formação Calumbi, bacia de Sergipe.

Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas

Os palinomorfos: acritarcos e prasinófitas

 

 Os palinomorfos: acritarcos e

prasinófitas

Ilma Maria Rodrigues Barrilari* & Elizabete Pedrão #

* PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: ilma@cenpes.petrobras.com.br)

# PETROBRAS/CENPES, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: elizabete@cenpes.petrobras.com.br)

 Os acritarcos e prasinófitas são microfósseis orgânicos unicelulares ou aparentemente unicelulares, não coloniais, de pequenas dimensões (5 a 150 mm) e resistentes à preparação através de ataques por ácidos. O Grupo Acritarcha (do grego akritos = incerto + arche = origem) foi originalmente definido como pequenos microfósseis de afinidades biológicas desconhecidas e provavelmente variadas, consistindo de uma cavidade central simples ou de múltiplas camadas, de composição predominantemente orgânica, fechada ou comunicando com o exterior de diversas maneiras (poros,  ruptura irregular ou em forma de fenda estreita e abertura circular, o piloma), além de simetria, forma, estrutura e ornamentação variadas1 (Figura 1). A parede é composta por esporopolenina, à semelhança dos pólens e esporos de plantas modernas e fósseis.

 

A classificação deste grupo é muito controversa, sendo os elementos distribuídos em diversas classes e ordens. Devido a esta profusão de classificações, o sistema mais utilizado atualmente é o esquema onde os gêneros e espécies são dispostos em ordem alfabética2. O emprego de um sistema de classificação mais formal só será possível à medida que as microfloras se tornarem melhor conhecidas.

Os acritarcos apresentam registro desde o Pré-Cambriano até o Recente e ampla distribuição mundial, sendo utilizados para posicionamento temporal das rochas, em reconstruções paleoambientais e em estudos de evolução e maturação da matéria orgânica. São abundantes e muito diversificados nas rochas sedimentares paleozóicas, com dominância no Paleozóico Inferior, e com ocorrências menos expressivas do Cretáceo ao Recente. São, em sua maioria, encontrados em sedimentos marinhos ou de água salobra. Algumas formas de água doce têm sido observadas do Permiano ao Recente. Os acritarcos não são bons indicadores de profundidade, pois requerem fatores fisiológicos para realização de fotossíntese, limitando seu hábitat à zona fótica. No entanto, em combinação com palinomorfos de origem continental (esporos e grãos de pólen), indicam proximidade da linha de costa3.

Figura 1 - Exemplos de formas de acritarcos.

Por possuírem características similares às algas fotossintéticas atuais (prasinófitas), os acritarcos são considerados como representantes fósseis do estágio de cisto ou ficoma do ciclo de vida dessas algas. Por essa razão, muitos gêneros antes considerados acritarcos agora passaram a ter suas afinidades relacionadas às algas prasinófitas e outros, aos protistas (Divisão Dinoflagellata). Contudo, aproximadamente 350 gêneros possuem relações biológicas ainda desconhecidas. Em termos sistemáticos, os acritarcos, assim como as algas prasinófitas, são considerados vegetais e, por isso, aliados ao Código Internacional de Nomenclatura Botânica.

Na bacia de Sergipe foram registrados alguns exemplares de acritarcos marinhos no Paleoceno da Formação Calumbi, representados pelo gênero Veryhachium sp.

Nos primeiros trabalhos sobre prasinófitas estas foram descritas como algas em forma de discos, posteriormente classificados como Tasmanites sp.4, 5. Seguiram-se novos estudos referentes ao desenvolvimento dos ciclos reprodutivos das prasinófitas, inclusive comparando Tasmanites com outros gêneros viventes e fósseis6, 7.

As algas prasinófitas apresentam duas fases distintas na sua história de vida - uma móvel e outra não móvel (ficoma) - havendo dominância de uma ou outra em certos ciclos de vida (Figura 2). Exceto pelo registro de reprodução sexual em Nephroselmis, apenas reprodução assexuada é conhecida neste grupo8.

As algas prasinófitas fósseis, assim como as formas correlatas modernas, possuem distribuição global. As formas modernas são principalmente marinhas, embora também tenham sido registrados alguns representantes em ambientes salobros ou de água doce9. Os fósseis, bem como os elementos atuais, são encontrados em ambientes proximais, lagoas rasas e áreas deltaicas, assim como em sedimentos oceânicos. Estudos realizados em depósitos ricos em prasinófitas fósseis têm demonstrado que a distribuição dessas algas verdes é favorecida por águas de baixa temperatura e reduzida salinidade10.

Figura 2 - Estágios principais no ciclo de vida de Pterosperma.

 

Apesar da sua simplicidade, as algas prasinófitas devem ser consideradas como altamente bem-sucedidas em sua adaptação ao meio-ambiente. Esta capacidade de adaptação permite sua proliferação em condições adversas a outros organismos. O grupo tem permanecido mais ou menos com a mesma morfologia desde o Paleozóico até os dias atuais.

Exemplares de prasinófitas foram reconhecidos na seção paleocênica (Formação Calumbi) da bacia de Sergipe (Figura 3). Associados às ocorrências de dinoflagelados, permitem identificar sedimentos de origem marinha (ambiente nerítico).

Figura 3 - Exemplar de prasinófita (Pterospermella sp.), Paleoceno superior da Formação Calumbi, bacia de Sergipe.

 

1Evitt, W. R. 1963. A discussion and proposals concerning fossil dinoflagellates, hystrichospheres and acritarchs - I, II. Proceedings of the Natural Academy of Sciences of the United States of America, 49: 158-164, 298-302.

2Loeblich Jr., A. R. 1970. Morphology, ultrastructure and distribution of Paleozoic acritarchs. Proceedings of the North America Paleontological Convention, Chicago (1969), parte G, 2: 705-788.

3Strother, P. K. 1996. Acritarchs. In Jansonius, J. & McGregor, D. C. (Ed.), Palynology: Principles and Applications. American Association of Stratigraphy Palynologists Foundation, 1: 81-106.

4Ralph, T.S. 1865. Abstract. Transactions of the Royal Society of Victoria, VI: 7.

5Newton, E. T. 1875. On “Tasmanites” and Australian “white coal”. Geological Magazine, 12: 337-342.

6Wall, D. 1962. Evidence from recent plankton regarding the biological affinities of Tasmanites Newton 1875 and Leiosphaeridia Eisenack 1958. Geological Magazine, 99: 353-362, estampa 17.

7Jux, U. 1977 Über die Wandstrukturen sphaeromorpher Acritarchen: Tasmanites Newton, Tapajonites Sommer & van Boekel, Chuaria Wakcott. Palaeontographica, Abteilung B, 160: 1-16, estampas 1-5.

8Suda, S.; Watanabe, M.M. & Inouye, I. 1989. Evidence for sexual reproduction in the primitive green algae Nephroselmis olivacea (Prasinophyceae). Journal of Phycology, 25: 596-600.

9Tappan, H. 1980. The paleobiology of plant protists. W. H. Freeman and Company, San Francisco, 1028 pp.

10 Prauss, M. & Riegel, W. 1989. Evidence from phytoplankton associations for causes of black shale formation in epicontinental seas. Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie, Monnatshefte 1989 (11): 671-682.

 

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