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número:
1. Os crustáceos: conchostráceos
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Ano 3 Número
29 Maio 2001 |
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Os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas Os crustáceos:
conchostráceos |
Com este número encerramos a primeira parte de nossa série
sobre os fósseis da bacia de Sergipe-Alagoas no que diz respeito aos
macroinvertebrados. Embora alguns grupos possam não ser considerados tão
grandes assim, como os ostracodes, já foram abordados por pertencerem a taxa
com representantes de grandes dimensões. No próximo número continuaremos nossa
série com os microfósseis propriamente ditos, começando pelos esporos.
Salientamos que todos os números lançados estão também disponíveis on-line na home page da fundação no endereço www.fundphoenix.cjb.net.
Os
crustáceos: conchostráceos
Ismar de
Souza Carvalho* & Mitsuru Arai #
* UFRJ - Dept°
de Geologia - Instituto de Geociências/CCMN, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
Brasil (e-mail: ismar@igeo.ufrj.br)
# PETROBRAS/CENPES,
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (e-mail: arai@cenpes.petrobras.com.br)
Os conchostráceos são pequenos crustáceos, com tamanho
variando entre menos de 3 mm a até 4 cm, que fazem parte da fauna bentônica de
ambientes aquáticos temporários. Apresentam duas valvas constituídas de
quitina, impregnadas ou não por carbonato de cálcio. Normalmente apenas as
valvas são preservadas nos fósseis.
Os conchostráceos são organismos predominantemente
dulciaqüícolas, habitando águas temperadas ou quentes, alcalinas, com pH entre
7 e 9. Distribuem-se sobre o substrato argiloso de corpos d’água rasos e
temporários, onde podem escavar ativamente o fundo mole e de granulação fina.
Alimentam-se de restos vegetais e de microrganismos (ostracodes e copépodes)
obtidos através do revolvimento e ingestão de pequenas partículas dos
sedimentos lamosos.
São organismos cosmopolitas, encontrados em corpos d’água
temporários em todas as latitudes. Além dos lagos temporários, podem ser
encontrados também em margens de lagos perenes, planícies de inundação, fontes
termais ou mesmo lagunas costeiras.
Seus ovos podem ser submetidos a longos períodos de dissecação e serem dispersos pelo vento ou pela água. Os ovos eclodem logo após o enchimento das depressões, o que faz com que as diversas gerações sejam síncronas. Somente após a fase larval, durante a qual se forma a carapaça, é que adotam um modo de vida mais sedentário.
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Os conchostráceos possuem um corpo dividido em duas
partes: a cabeça, onde estão situados dois pares de antenas, e o tronco, onde
podem ser encontrados até 25 pares de apêndices. O corpo do animal é
envolvido por uma carapaça bivalve, estando conectada a ela através de um
ligamento estreito e por músculo adutor (Figura 1). O contorno das valvas
varia de subcircular a subquadrado, exibindo uma charneira arredondada ou
reta. A superfície da valva é ornamentada por linhas concêntricas, estrias,
costelas ou ondulações (Figura 2). |
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Figura 1 – Diagrama esquemático da morfologia interna de um conchostráceo1. |
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Muitas conchas de conchostráceos apresentam dimorfismo,
com as fêmeas normalmente menores que os machos A proporção de machos e
fêmeas nas populações de conchostráceos atuais parece estar influenciada pela
temperatura dos corpos d’água, com predomínio dos machos em regiões de clima
quente. |
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Figura 2
- Aspectos morfológicos principais da valva de um conchostráceo 2. |
Como as partes moles dificilmente são preservadas durante a
fossilização, a classificação sistemática de fósseis deste grupo baseia-se nas
feições morfológicas das valvas3.
O registro fóssil dos conchostráceos remonta ao início do
Devoniano. A aplicação bioestratigráfica do grupo, contudo, é restrita devido à
ampla distribuição das formas. São, porém, bons indicadores paleoambientais.
A bacia de Sergipe-Alagoas, apesar da ampla fauna de
invertebrados e vertebrados já descrita, possui poucos fósseis indicativos de
corpos aquosos efêmeros de água doce. Em um afloramento da Formação Maceió,
localizado na praia de Japaratinga, costa norte do Estado de Alagoas, de idade
aptiana (cerca de 120 Ma), ocorre uma fauna monoespecífica de conchostráceos
cyzicídeos. A sucessão de rochas em que estão presentes compreende arenitos
grossos intercalados em dois níveis de siltitos argilosos (estes ricos em
conchostráceos), cuja origem relaciona-se a lagos rift com balanço hídrico negativo4. Admite-se que
tais lagos estivessem sob condições climáticas áridas. Conchostráceos são ainda
encontrados em folhelhos das formações Bananeiras (Jurássico-Cretáceo) e
Muribeca (Aptiano) da bacia de Sergipe.
Apesar do grande número de espécies descritos na literatura,
o Brasil e a África provavelmente compartilharam faunas de conchostráceos
comuns durante o Eocretáceo. Talvez esta proliferação de espécies resulte de
procedimentos taxonômicos distintos entre os diversos autores. A classificação
e as revisões sistemáticas dos conchostráceos do Gondwana irão certamente
permitir seu uso na bioestratigrafia dos depósitos continentais e aumentar o
conhecimento das modificações ecológicas nos ambientes terrestres cretáceos.
1Moore, R. C. &
McCormick, L. 1969. General features of Crustacea. In Moore, R. C. (Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology,
Part R, Arthropoda 4, Geological Society of America, University of Kansas, v.1,
p. R57-R120. Lawrence, Kansas.
2Carvalho, I. S. 1993. Os conchostráceos fósseis das bacias interiores do
Nordeste do Brasil. Tese de doutorado não publicada, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de Pós-Graduação
em Geologia, Rio de Janeiro, 319 pp.
3Tasch, P. 1969. Order
Conchostraca. In Moore, R. C.
(Ed.): Treatise on Invertebrate Paleontology,
Part R, Arthropoda 4, Geological Society of America, University of Kansas, v.1,
p. R141-R163. Lawrence, Kansas.
4Arienti, L. M. 1996. Análise estratigráfica, estudo de fluxos
gravitacionais e geometria dos depósitos "rift"da Fm. Maceió e Fm.
Poção – Bacia de Alagoas. Tese de doutorado não publicada,
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Geociências, Programa de
Pós-Graduação em Geologia, Rio de Janeiro, 2 volumes, 398
pp.